06 de setembro de 2021 às 00:00

VLI promete investir na ferrovia que sucateia

Antônio Carlos Tramm
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Precisamos lutar para que a Bahia tenha uma rede ferroviária de verdade, modernizada, eficiente e digna dos enormes avanços econômicos que o estado apresentou nos últimos 20 anos

VLI promete investir na ferrovia que sucateia
Nas últimas semanas, a VLI, concessionária que administra a Ferrovia Centro-Atlântica desde 1996, tem prometido através de anúncios na imprensa que vai investir no “trecho baiano de circulação de trens entre o estado e o Sudeste do país” . Uma declaração que só pode ser vista como zombaria da concessionária que há 25 anos tem sucateado os três trechos da FCA que poderiam estar ajudando no desenvolvimento econômico da Bahia. 
 
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que a FCA/VLI não se trata apenas do trecho que sai do pólo petroquímico de Camaçari e desce para o sudeste. Existem ainda o ramo que vai até Juazeiro e poderia estar servindo, dentre outros, para o escoamento do cobre, cimento e das frutas produzidas naquela região; e o que se dirige a Aracaju-SE, fundamental para a integração da Bahia com os outros estados do Nordeste. Podemos concluir então que se a empresa renovar sua concessão vai condenar as estradas férreas baianas ao desmanche do tempo? 
 
O sucateamento não seria uma surpresa. Segundo um relatório interno sobre a ferrovia, elaborado em novembro do ano passado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), no ano de 2019, a FCA concentrou 90% da sua operação em apenas 2.341 km dos 7.094 km totais da ferrovia. Essa ação mostra uma estratégia de maximizar os lucros da concessionária, em detrimento à prestação de serviço público, que deveria balizar a sua conduta. As linhas trafegadas estão nos estados de Goiás, São Paulo e Minas Gerais, “concidentemente” onde estão os negócios da Vale, principal acionista da VLI. 
 
Os outros 4.753 km que não interessam à VLI, incluindo todos os trilhos que cruzam a Bahia, estão com manutenção inadequada ou inexistente. O descaso é tamanho que sequer “os veículos de verificação de manutenção conseguem trafegar”. 
 
Em 1996, quando a FCA passou a operar sob gestão da VLI, a malha ferroviária na Bahia correspondia a 1942 quilômetros e transportava cargas e passageiros. Hoje, segundo a própria concessionária, são 1550 quilômetros. Os trens sumiram, não transportam nem cargas e nem passageiros. Além do sucateamento da malha, houve abandono de trechos e até mesmo a retirada de pontos importantes como o acesso ao Porto de Aratu. 
 
Essa é uma questão importante não apenas para a mineração, mas também para o agronegócio, para a fruticultura e para a indústria química. Precisamos lutar para que a Bahia tenha uma rede ferroviária de verdade, modernizada, eficiente e digna dos enormes avanços econômicos que o estado apresentou nos últimos 20 anos. Não podemos nos conformar com a ilusória promessa de “melhorar a ligação da Bahia com o sudeste”. Precisamos de um trem que exista!