03 de maio de 2021 às 00:00

Salvador, BTS e o isolamento ferroviário

Waldeck Ornélas
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(...) Vive a Região Metropolitana de Salvador – e muito especialmente a Baía de Todos-os-Santos – o risco do isolamento ferroviário. Este risco está sendo criado por um parasita chamado renovação antecipada da concessão da Ferrovia Centro Atlântica (FCA).

Salvador, BTS e o isolamento ferroviário

Em tempos de pandemia, tornou-se popular o conceito de isolamento social. Sem que haja motivo análogo, vive a Região Metropolitana de Salvador – e muito especialmente a Baía de Todos-os-Santos – o risco do isolamento ferroviário. Este risco está sendo criado por um parasita chamado renovação antecipada da concessão da Ferrovia Centro Atlântica (FCA).

No mesmo momento em que se festeja o leilão de concessão do trecho 1 da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) – que fará renascer o litoral sul baiano – a nova concessão da FCA, pelos próximos trinta anos, sem qualquer compromisso de investimento na malha tradicional baiana, condena-a ao desaparecimento. E isto compromete séria e definitivamente as possibilidades de desenvolvimento da Bahia.

Não creio que se trate de algo intencional, mas a esterilização do corredor Minas - Bahia isola a Região Metropolitana de Salvador da malha ferroviária nacional, descartando o aproveitamento do imenso potencial portuário – de grande capacidade e baixo custo – da Baía de Todos-os-Santos, que qualquer modelo elementar de integração do sistema de transportes faria questão de aproveitar.

A mesma ameaça paira, também, sobre o polo Juazeiro (BA) – Petrolina (PE), o maior aglomerado urbano do interior do Nordeste, depois de Feira de Santana. 

E não se fale em falta de viabilidade econômica: os estudos oficiais demonstram que os eixos rodoviários das BRs 116 e 101 são os de maior carregamento de toda a vasta malha rodoviária nacional, fazendo a ligação Sudeste-Nordeste. E boa parte desta carga mais propriamente se adequa ao modal ferroviário.

Faltou à FCA, no quarto de século transcorrido desde a sua concessão inicial, a proatividade e o interesse necessários em desenvolver a malha baiana, dedicando atenção exclusiva aos interesses de sua controladora original, a Cia. Vale do Rio Doce, que por aqui não tem grandes negócios. Ao contrário, ainda a pouco, inclusive, desativou a SIBRA, em Simões Filho.

De outro lado, do ponto de vista do estado nacional, e até por razões de segurança econômica, para qualquer país das dimensões continentais do Brasil é indispensável contar com uma rota alternativa para atender a situações fortuitas. Falta redundância ao sistema que está sendo desenhado.

A transformação da Ferrovia Norte - Sul na espinha dorsal do sistema ferroviário nacional é muito interessante e interioriza o desenvolvimento do país, resgatando a saga de Juscelino Kubitschek. Mas a preservação do eixo ferroviário Belo Horizonte -Salvador e de suas extensões a Juazeiro - Petrolina – com futuro acesso à Transnordestina – e a Propriá (SE) – com acesso a Recife (PE), se impõe, indiscutivelmente, como o caminho para a formação de uma malha segura e confiável para o Brasil. 

Quanto à Baía de Todos-os-Santos, não é apenas uma das mais belas baías do mundo, além da segunda maior, e nem somente depositária de fatos marcantes da História do Brasil. Por sua localização, no centro da costa brasileira, suas águas profundas e abrigadas são, sobretudo, um importante e estratégico porto natural, capaz de acolher on-shore os maiores e mais modernos navios do mundo – os pós-panamax – como no passado acolheu as caravelas que buscavam o caminho das Índias, fazendo de Salvador, por largo tempo, o mais importante porto do Hemisfério Sul.

Esses bons tempos podem voltar, agora como Capital da Amazônia Azul, e um importante centro para a conexão internacional e a cabotagem. Mas isto exige e impõe uma conexão ferroviária com o resto do país.  

A Bahia precisa mobilizar-se para defender o seu futuro!

Waldeck Ornélas, especialista em planejamento urbano-regional, é autor de Cidades e Municípios: gestão e planejamento.

Artigo publicado originalmente em Jornal Correio*.

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