07 de junho de 2019 às 11:08

Indústria baiana perde participação na economia do Nordeste

Estado segue como o principal da região, mas vê Pernambuco e Ceará mais próximos

O retrato é de 2017, entretanto o cenário de lá para cá permanece inalterado. A indústria baiana está regredindo, tal qual Benjamin Button, aquele do filme do caso curioso. Após os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre mostrarem a menor participação do setor na economia em dez anos, ontem foi a vez da Pesquisa Industrial Anual (PIA) de 2017 mostrar o encolhimento da atividade industrial na comparação com os outros estados da região Nordeste e mesmo com a média nacional. 

 
 

Em dez anos, entre  2008 e 2017, a participação da indústria baiana na região Nordeste caiu de 52,6% para 40%. Em apenas um ano, entre 2016 e 2017, a atividade encolheu 2,6 pontos percentuais na comparação regional, passando de 42,6% para 40%. O estado manteve a sétima posição na participação do PIB industrial nacional, apesar da queda de 4,4% para 4% no resultado, entre 2016 e 2017. O valor adicionado pela atividade ao PIB apresentou uma retração de R$ 1,6 bilhão, em relação ao ano anterior. Foi o pior resultado em em termos absolutos e o sexto pior em termos percentuais. 

Mesmo com os resultados ruins, o estado manteve também a posição de liderança no total da atividade industrial na região Nordeste. Entre 2016 e 2017, quem mais ganhou participação na região foram os estados de Pernambuco – de 18,7% para 20,3%–  e o Ceará, que passou de 14,3% para 15,0%.

Comparando com 2008, quando a Bahia respondia por mais da metade do valor gerado pela indústria nordestina (52,6%), Pernambuco também lidera no ganho de participação, passando de 11,9% para 20,3%, e o Ceará apresenta o segundo maior aumento, passando de 11,6% para 15,0%.

 

O lado bom
 Apesar de serem insuficientes para reverter a trajetória dos últimos anos, o ano de 2017 trouxe algum alento para a indústria. As unidades industriais em atividade no estado voltaram a apresentar saldo positivo no total de pessoas ocupadas, após três anos seguidos em queda. A indústria baiana fechou 2017 com 215.035 empregados, 1.375 a mais que em 2016 (+0,6%).

Embora tenha sido um aumento tímido e longe de recuperar os 32.301 empregos perdidos pelo setor entre 2014 e 2016, o movimento foi na contramão da média nacional e representou o melhor resultado para esse indicador entre os nove estados da região Nordeste.

No Brasil como um todo, o número de trabalhadores nas empresas industriais seguiu caindo, de 7.262.609 em 2016 para 7.213.944 em 2017, com saldo negativo de menos 48.665 empregados (-0,7%), de um ano para o outro. Houve retração do emprego na indústria em 16 dos 27 estados brasileiros nesse período.

 

De 2016 para 2017, os maiores aumentos absolutos no número de trabalhadores no setor ocorreram no Paraná (+7.883), em Goiás (+5.587) e Minas Gerais (+4.357), enquanto os saldos mais negativos foram verificados em São Paulo (-35.461), no Rio de Janeiro (-17.035) e no Rio Grande do Norte (-5.590).

A Bahia teve o oitavo maior aumento, tanto em números absolutos quanto em termos percentuais. 

Onde empregou
O crescimento do emprego industrial na Bahia, entre 2016 e 2017, foi fortemente puxado pela indústria de transformação, onde o número de pessoas ocupadas passou de 202.072 para 203.340, representando mais 1.268 empregados (+0,6%) no período. Das 24 atividades de transformação investigadas na Bahia, dez tiveram saldo positivo no número de trabalhadores.

 

Os três principais destaques ficaram com a fabricação de produtos alimentícios, que teve o maior aumento absoluto no número de pessoas trabalhando (de 38.913 em 2016 para 41.822 em 2017, mais 2.909, ou +7,5%). Em seguida surge a preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (de 27.955 para 29.264, mais 1.309 empregados ou +4,7%); e por fim, a fabricação de móveis, que passou de 5.295 postos para 6.227 pessoas trabalhando.

O maior desempenho em atividades industriais com maior geração de empregos – como o setor de alimentos – e a queda em setores com maior impacto na dinâmica econômica, como os setores de petróleo e químico, ajudam a entender por que a atividade perdeu participação, apesar do aumento no número de empregos e de unidades industriais. 

“É um aumento pequeno, mas importante porque acontece após três anos de quedas. Só não teve um impacto maior no resultado da indústria porque a atividade é muito concentrada em setores que não foram bem, como o de petróleo e a indústria química”, explica Mariana Viveiros, analista de disseminação da informação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A analista do IBGE lembra que no período do estudo não houve registros de um grande número de fechamentos de unidades nas áreas de petróleo e na indústria química no estado. Para ela, o que explica a retração das atividades seria um volume menor de produção. “Precisamos lembrar que em 2017 a conjuntura era marcada por uma crise institucional no setor do petróleo, com problemas políticos e de gestão”, lembra.

SDE aposta em uma retomada este ano

O anúncio recente da Petrobras, de que vai oferecer ao mercado em breve 22 áreas de produção de petróleo em campos maduros na Bahia, é a aposta do vice-governador e secretário de Desenvolvimento Econômico, João Leão, para a volta do crescimento da indústria de petróleo na Bahia. O setor de petróleo, ao lado do químico, liderou a retração da atividade industrial na Bahia em 2017, de acordo com a Pesquisa Industrial Anual (PIA), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

“A retração nestes dois segmentos ocorreu devido à conjuntura econômica do país e ao fechamento temporário da Fafen e à redução de produção na Rlam. Entretanto, o governo da Bahia está confiante em virtude do anúncio feito pela Petrobras, essa semana, de que oferecerá ao mercado 22 áreas de campos maduros, de óleo e gás, em dois polos baianos: Recôncavo e Ventura”, disse em nota enviada pela assessoria de imprensa. 

“Queremos colocar as áreas produtoras para funcionar, o que não pode é ficar parado, pois se os poços estiverem em funcionamento, eles vão gerar empregos, riquezas e renda para nosso povo e para a Bahia”, afirma.

Sobre o aumento no número de empregos, Leão destaca o seguinte: “O crescimento do emprego no setor da indústria aqui na Bahia se dá pela retomada da atividade em alguns setores, destacando-se alimentos, calçados de couro e móveis, atrelado ao aumento no número de unidades fabris”.

Entre 2016 e 2017, o total de unidades industriais na Bahia também aumentou, passando de 5.933 para 5.963, com 30 fábricas a mais, o que representou um crescimento de 0,5%. Foi a terceira maior expansão, em termos absolutos, dentre os estados brasileiros, menor apenas que as verificadas em Santa Catarina (mais 92 unidades fabris em um ano) e Alagoas  (+37).


Petróleo e química concentram queda

A queda do valor agregado de transformação (VTI) da Bahia, que mede o que a atividade industrial acrescenta ao PIB, foi concentrada nos dois segmentos com maior participação na estrutura de valor da indústria baiana.

O setor de petróleo, que responde por 20% do valor gerado pela indústria baiana, viu seu VTI cair 18,9% entre 2016 e 2017, passando de R$ 13,2 bilhões para R$ 10,7 bilhões (menos R$ 2,5 bilhões). Já a fabricação de produtos químicos, segunda atividade mais importante, responsável por 15,6% do valor gerado, apresentou um recuo de R$ 9,1 bilhões para R$ 7,3 bilhões, entre 2016 e 2017, que representou uma queda de 19,6%.

O especialista em políticas públicas da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), Luiz Mário Vieira, explica que as dificuldades vividas pela indústria se devem às dificuldades para a retomada nas atividades que têm um peso importante na formação do VTI. “Aqueles segmentos que eram importantes em 2017 e que são importantes agora ainda não apresentaram uma mudança de trajetória”, avalia Vieira. 

Para o economista, um sinal claro de que o cenário atual é parecido com o de 2017 foi a participação da indústria no PIB do primeiro trimestre deste ano. “Foi a pior participação da indústria nos últimos dez anos”, lembra. Segundo Luiz Mário Vieira, o cenário causa preocupação porque a atividade industrial é importante para uma retomada consistente do crescimento econômico. 

No cenário nacional, a indústria gerou R$ 1,2 trilhão de valor da transformação industrial em 2017. O resultado foi consequência de um valor bruto da produção de R$ 2,7 trilhões, menos os custos de R$ 1,5 trilhão das operações industriais. 

A indústria de transformação foi responsável por 91,3% da riqueza gerada em 2017. Em 2017, a indústria brasileira registrou faturamento bruto total de R$ 3,9 trilhões, sendo 82,5% relativo à receita bruta da venda de produtos e serviços industriais. Em dez anos, houve queda de 1,8 ponto percentual na participação dessa modalidade de receita, puxada pela indústria de transformação.

Fonte: Jornal Correio*