26 de fevereiro de 2018 às 00:00

Investimento produtivo em Keynes: Um guia teórico para uma reflexão sobre o Brasil

Oswaldo Guerra
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Para Keynes, as decisões de investir do empresário capitalista seriam orientadas pelo cotejamento de duas variáveis: a Eficiência Marginal do Capital (EMC) e a taxa de juros

Investimento produtivo em Keynes: Um guia teórico para uma reflexão sobre o Brasil

“As idéias dos economistas e dos filósofos políticos, tanto quando eles estão certos como quando eles estão errados, são mais poderosas do que geralmente se entende. Na verdade, o mundo é regido por pouca coisa a mais. Homens práticos que acreditam ser isentos de influências intelectuais são geralmente escravos de algum economista defunto. Os loucos em posições de comando, que ouvem vozes no ar, destilam seu frenesi a partir de algum escriba acadêmico de poucos anos atrás”. John
Maynard Keynes.

A expansão de 0,1% do PIB brasileiro no terceiro trimestre de 2017, frente ao segundo do mesmo ano, último dado disponibilizado pelo IBGE¹, trouxe um pouco de otimismo. Não devido a esse resultado pontual do PIB, mas sim em razão da composição desse número, que trouxe o primeiro aumento do investimento produtivo, medido pela formação bruta de capital fixo (FBCF). Ela cresceu 1,6%, na mesma base de comparação, após quinze trimestres consecutivos de queda. Esse indicador mede o
aumento dos bens de capital das empresas, aqueles bens que servem para produzir outros bens. São basicamente máquinas, equipamentos e material de construção. Ele é importante porque informa se a capacidade de produção do país está crescendo e também se os empresários estão confiantes no futuro.

Se, todavia, olharmos para outro indicador, a taxa de investimento, que relaciona a FBCF com o PIB, ou seja, quanto do PIB é destinado ao investimento produtivo, o discreto otimismo diminui. Na economia brasileira, ela continuava extremamente baixa (16,1%) no terceiro trimestre de 2017 frente à igual período de 2016². Cabe uma questão. Qual a taxa de investimento necessária para garantir um crescimento econômico sustentado, sem pressões inflacionárias? No Brasil, entre 2003 e 2013, a
taxa de investimento subiu de 16,4% do PIB para 21,5%. Segundo Coutinho³, ela garantiu um decênio de crescimento da economia à média de 3,8% ao ano. Todo esse avanço foi revertido em apenas três anos e meio. Entre meados de 2014 e 2017, a participação do investimento no PIB encolheu de 20% para 16%.

Existem muitas teorias sobre os determinantes do investimento produtivo em uma economia capitalista. O objetivo desse artigo será o de revisar brevemente a teoria do investimento de Keynes, deixando tal revisão como um guia para uma questão que apresentarei ao leitor ao final desse texto. O foco da revisão se dirige para a parcela privada do investimento, preocupação de Keynes e a mais significativa em economias capitalistas. No Brasil, no período 1995-2015, a participação do setor privado no valor
total da FBCF atingiu, em média, 82,5% enquanto a do setor público (administrações públicas e empresas estatais da União) foi de apenas 17,5%4.

Vamos a Keynes. Para ele, as decisões de investir do empresário capitalista seriam orientadas pelo cotejamento de duas variáveis: a Eficiência Marginal do Capital (EMC) e a taxa de juros. A EMC é dada pela relação entre a renda esperada a partir da compra de um bem de capital e o preço de oferta desse bem. Essa renda esperada é estimada com base no fluxo de receitas futuras que o capitalista espera obter da venda de seus produtos enquanto durar seu estoque de capital, feita a dedução das despesas correntes necessárias à obtenção dos ditos produtos.

Um ponto crucial na teoria do investimento keynesiano é o papel desempenhado pelas expectativas empresariais, expectativas essas que já estão postas na definição da EMC. Como Keynes afirma no capítulo 11 da Teoria Geral do Emprego, Juro e Moeda, a alternância entre expansão e depressão é explicada pelas flutuações da EMC que, por sua vez, são fortemente influenciadas pelas expectativas. As expectativas, que são formadas pelos empresários, dizem respeito a um futuro incerto. A existência de um equipamento durável ligaria o futuro ao presente. Nesse sentido, a EMC e também o juro, como se verá adiante, são elos teóricos entre o hoje e o amanhã.

Importa destacar que no horizonte de planejamento dos capitalistas existem dois tipos de expectativas de natureza distintas. As de curto prazo orientam as decisões de produção corrente para um determinado período de produção, dizem respeito às decisões de produzir com o estoque de capital disponível. As de longo prazo orientam as decisões de investimento que envolve a compra de um bem de capital. Na formação dessas expectativas de longo prazo, a tendência é considerar a situação atual e projetá-la no futuro, modificando-a apenas à medida que os empresários tenham razões mais ou menos definida para esperar mudanças. É o que se chama
expectativa convencional e que difere das expectativas racionais.

O estado de confiança dos empresários desempenha papel crucial na formação das expectativas. Em um cenário recessivo, se os empresários não confiam em mudanças na política econômica, eles não alterarão suas expectativas e continuarão sem realizar investimentos produtivos. Para realizá-los é preciso que haja alguns sinais, em termos de política econômica, que os orientem. Se as regras do jogo mudam com freqüência,
os empresários se retraem por dificuldade de formar expectativas.

Como dito acima, as decisões de investimento não se resumem a EMC. De posse do cálculo da EMC, a decisão de investir do capitalista se dará quando ela for maior ou igual ao custo do capital que, por sua vez, pode ser aproximado pela taxa de juros. Esta, por sua vez, é determinada no mercado monetário, pela demanda por moeda (preferência pela liquidez) dada a oferta de moeda. Quando um indivíduo prefere a liquidez, ou seja, mantém sua renda sob a forma líquida imediata (dinheiro + depósito à vista), ele deixa de receber juros. Alternativamente, se o indivíduo abre mão de seu
poder aquisitivo imediato por um dado período de tempo, ele recebe em compensação determinada taxa de juros. Deste modo, para Keynes a taxa de juros é a recompensa que o indivíduo recebe por renunciar à liquidez.

A questão é: Quais os motivos que levam as pessoas a preferirem a liquidez, abrindo mão de ganhar juros? As necessidades diárias de transação (motivo transação), os gastos imprevistos que podem surgir no dia-a-dia (motivo precaução) e a incerteza das pessoas quanto ao futuro das taxas de juros (motivo especulação). Exemplificando este último. Se um indivíduo considera que as taxas de juros estão baixas e espera que elas subam proximamente, ele mantém sua renda na forma líquida, aguardando
os juros subirem para fazer uma aplicação financeira, abrindo mão nesse caso da preferência pela liquidez.

Desta maneira, a taxa de juros assim como a EMC dependem de expectativas formadas pelos agentes econômicos a respeito de um futuro incerto. Como bem sublinha Possas, no texto acima citado, “a taxa de juros representa de forma condensada o trade – off do investidor, enquanto aplicador de capital numa ampla carteira de ativos, entre o investimento produtivo e a liquidez. O investimento e a liquidez pertencem a uma mesma ordem de determinação, que diz respeito à definição da forma de conservação e/ou valorização da riqueza. Esta valorização impõe um cálculo prospectivo. A valorização é o futuro e, reconhecendo-se as inelimináveis incertezas a ele inerentes, explicita-se a base de cálculo a seu respeito, sobre a qual se apoiam as expectativas dos capitalistas no momento da tomada de decisão”.

Em razão do exposto, pode-se afirmar que para Keynes os capitalistas procuram valorizar o seu capital através da aquisição de ativos que podem ser de natureza produtiva ou financeira. O investimento produtivo se apresenta para o empresário como uma alternativa a ser considerada. Este tipo de investimento se diferencia de uma aplicação financeira pelo fato de ser quase irrevogável, de longa maturação e estar associado a ativos de grande durabilidade e baixa ou nula liquidez. Enfim, o empresário não se sente obrigado a investir produtivamente.

1 Disponível em www.ibge.gov.br. Acesso em 8/2/2018.

2 O IBGE, em série histórica iniciada em 1947, indica que a maior taxa de investimento no
Brasil (26,9%) foi registrada em 1989.

3 Luciano Coutinho. Investimento motor do desenvolvimento, Valor Econômico, 1/2/2018.

4 José Roberto Afonso. Uma abordagem macroeconômica: investimentos públicos. Rio de
Janeiro, 11/3/2016.

5 Ver a respeito Mario Possas. Dinâmica da economia capitalista. Uma abordagem teórica.
1987.

Oswaldo Guerra é economista e conselheiro do CORECON-BA.

Texto originalmente publicado em Corecon-BA, em fevereiro de 2018.

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