11 de dezembro de 2017 às 00:00

O segredo para avançar em infraestrutura

Katerina Labrousse
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Especialista do Fórum Econômico Mundial fala que um país só consegue melhorar sua infraestrutura se tiver três pontos em mente: planejamento de longo prazo, consideração de um risco justo e proposição de projetos financiáveis.

O segredo para avançar em infraestrutura

Nos últimos cinco anos, o Brasil perdeu posições no ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial (WEF, na singla em inglês). Em 2017, o país ocupa a 80ª posição, uma colocação preocupante se for levado em conta que o Brasil estava na 48ª em 2012. Para compor o ranking, são levados em conta 12 pilares e, entre eles, está a infraestrutura. Nos últimos cinco anos, o país passou da 70ª posição para a 73ª, mas a qualidade da infraestrutura tem índices especialmente desconfortáveis: a qualidade das estradas (123ª), dos portos (135ª), das ferrovias (100ª) e do transporte aéreo (134ª) são um grande gargalo para o desenvolvimento do país.

Foi pensando nesse drama que líderes da Fundação Lemann, recém saídos das universidades Harvard e Columbia, decidiram fundar o projeto infra2038, que quer colocar o país entre os 20 melhores no quesito infraestrutura do ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial nos próximos 20 anos – um avanço de 53 posições.

O desafio é imenso, mas não é impossível, de acordo com a líder do projeto National Infrastructure Acceleration do Fórum Econômico Mundial, Katerina Labrousse. Em entrevista a EXAME durante evento do infra2038, em São Paulo, a especialista explicou, porém, que o olhar sobre o problema precisa ser multidisciplinar. O ambiente para o desenvolvimento precisa ser mais favorável, com mais visão de longo prazo, mais continuidade de projetos entre governos e mais integração entre poder público, setor privado e sociedade civil.

O Brasil tem uma necessidade de melhora no ranking, mas qual nosso maior desafio ou nossa maior necessidade?

O Brasil tem uma clara necessidade de melhora em competitividade. O país ocupa a 80ª posição no ranking, o que é claramente não satisfatório quando deveria para uma economia como o Brasil, que é parte do G20. Apesar disso, nós temos visto muitas melhoras nos últimos anos, especialmente no setor de inovação, o que é muito positivo. Em relação à infraestrutura, obviamente há trabalho a ser feito, e nós acreditamos que o caminho passa por planejamento de longo prazo, consideração de um risco justo e proposição de projetos financiáveis.

A senhora citou como um dos problemas para o desenvolvimento o fato de que políticos tendem a construir pontes para lugar nenhum. Esse é um problema exclusivo do Brasil?

Não, acredite, isso é algo que nós vemos no mundo inteiro. Eu dei consultoria para o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Gordon Brown, que também via isso na economia britânica. Faz parte de um problema dos governos de desenhar projetos que não casam com a realidade do setor privado, o que provavelmente resulta em ideias que não fazem sentido. Também há outros dois problemas importantes: a descontinuidade nos ciclos políticos, porque os projetos de infraestrutura precisam ser pensados por 20 ou 30 anos – a priorização de ações de curto prazo precisa ser superada; e a falta de visão, que é um ponto crucial para conseguir avançar com projetos de longo prazo; sem ela, é fácil fazer escolhas que não trazem os resultados previstos.

Em infraestrutura, essa parceria entre poder público e setor privado é onde ela pode funcionar melhor?

Nós tendemos a creditar que essa é a melhor prática em termos de cooperação. Óbvio que as PPPs não são a solução para tudo, e não são a melhor saída para todos os projetos – ela não vai resolver o problema apenas por existir. Mas o diálogo e a cooperação entre público e privado são necessários, e só temos a ganhar com a conexão dessas duas realidades e perspectivas distintas, na busca por entendimento.

A ambição do grupo de subir tão rápido no ranking do Fórum Econômico Mundial é razoável? Soa possível?

Tudo é possível. Vai depender da capacidade deles de fazer uma ação coordenada entre todos os atores envolvidos. Para o Estado ser capaz de trabalhar de forma aproximada com a comunidade empresarial e também com a sociedade civil, é preciso convocar os acadêmicos para essa conversa, para entender quais as melhores práticas – se eles conseguirem acionar isso, para fazer com que as ações transcorram do melhor jeito possível, os resultados virão. Mas nós costumamos dizer que o ranking precisa ser usado como uma referência, para que seja possível visualizar onde se está, a partir daí, é preciso trabalhar.

E quando olhamos para o ranking é possível dizer que é o investimento em infraestrutura que vai fazer a diferença num salto de posições de modo geral? Ou nós estamos talvez deixando de olhar para outros índices que podem trazer mais resultados?

A construção de infraestrutura adicional ajuda a aumentar a competitividade, então naturalmente que vai ajudar. Mas os elementos estão todos muito conectados. Em termos de instituições públicas, por exemplo, se elas não forem eficientes o bastante, a competitividade não vai crescer o quanto poderia com o mesmo investimento em infraestrutura.

Outros países do mundo também estão focados em melhorar a infraestrutura?

Há uma diferença de foco: os países em desenvolvimento estão praticamente construindo sua infraestrutura do zero, enquanto os desenvolvidos estão tendo problemas com o envelhecimento de sua infraestrutura, porque não estão conseguindo fazer a atualização e a manutenção necessárias. Mas ambos necessitam imenso investimento no setor.

Katerina Labrousse é Especialista do Fórum Econômico Mundial.

Texto originalmente publicado em Intelog, em 10 de dezembro de 2017.

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