30 de maio de 2017 às 00:00

Histórias de brasileiros que precisam ser contadas

Claudio Cardoso
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Sinto falta de histórias bem contadas das maravilhas do nosso país, e tenho a firme convicção de que precisamos resgatá-las para a construção de uma nação novamente participante, aberta e protagonista da cena global.

Histórias de brasileiros que precisam ser contadas

Nunca me conformei que a maioria dos meus conterrâneos se surpreenda quando menciono o fato de que Salvador foi o maior porto comercial do hemisfério sul por quase trezentos anos e que, por conta disso, participou ativamente no desenvolvimento da globalização.

A Baía de Todos os Santos se viu pontilhada de centenas de embarcações das mais diversas origens, por séculos, e suas águas estavam habituadas a abrigar povos e línguas que praticamente cobriam todo o globo conhecido até então, talvez à exceção de asiáticos a partir da Indochina, e de povos mais próximos à Oceania, que à época ainda nem fazia parte desse mundo.

Gosto de mencionar essa importante passagem histórica na intenção, um tanto infrutífera, percebo, de estimular o resgate de um passado cosmopolita em nome da nossa tão cantada vocação para a hospitalidade.

Na verdade, adoraria ver um dia a cidade retomar uma participação relevante no comércio internacional. Me incomoda a sensação de isolamento do nosso país, a nossa falta de protagonismo e o provincianismo que progressivamente se instalou e se acentuou em décadas recentes.

Sinto falta de histórias bem contadas das maravilhas do nosso país, e tenho a firme convicção de que precisamos resgatá-las para a construção de uma nação novamente participante, aberta e protagonista da cena global.

Ao deixarmos de lado as várias notáveis façanhas do nosso país, corremos o risco de esquecer quem somos, não mais reconhecermos a nossa alma, e pior, sermos condenados a viver sem narrativas estimulantes. Não há destino mais errático para um povo do que vagar perdido sem mitologias inspiradoras, sem boas histórias para contar às novas gerações.

Lembro com emoção do brilho nos olhos do meu filho quando lhe contava, ainda pequeno, minhas pequenas façanhas da juventude. Ele adorava saber do jeito que dei para, sem ingresso e na maior cara de pau, entrar em um grande concerto no Hyde Park de Londres. Ou da vez que cheguei da escola e entrei no apartamento dos meus pais pela janela, na hora do almoço, todos à mesa, depois de escalar perigosamente os andaimes da reforma do prédio. Bastava passar duas semanas sem uma dessas ‘histórias do papai’ que ele me cobrava outra.

Todos sabemos da importância das histórias. Não é à toa que “narrativas e storytelling” se transformaram em temas tão caros às marcas na atualidade. Só se fala disso nos meios mais avançados e sofisticados da turma do branding.

Quando lembro da beleza singela da igreja do Largo da Graça na minha terra natal, e o total menosprezo pelos restos mortais da índia Catarina Paraguaçu, fico inconformado. Se fosse na Alemanha, penso eu, haveria uma cúpula de cristal em torno do túmulo, e seria motivo para peregrinação turística da mais alta relevância. Espero o dia que algum historiador me confirme se ela não foi o primeiro ser humano ameríndio a cruzar o oceano, visitar a Europa, onde esteve com a realeza, e depois voltar a América.

Essa é uma história incrível! Sempre penso nela como o verdadeiro ET: um ser de outro planeta que viaja, se encontra com outros seres, e retorna à sua origem. Afinal, consta que os povos da América migraram pelo estreito de Behring há mais de 200 mil anos. Essa mulher foi batizada em 1528 em Saint Malo na França, foi a Versalhes, na ida passou por Portugal, e voltou para casa! Não é uma façanha incrível? A correspondente norte-americana Pocahontas, que, como Catarina Paraguaçu, se casou com um europeu e atravessou o oceano, somente o fez em 1616, ou seja, quase um século depois. Tem filme, livro, o mundo inteiro sabe da sua linda história de amor com John Smith.

O Estadão publicou recentemente a fantástica história resgatada e tornada pública pelo empresário José Roberto Faraco Braga, o Beto Braga, que recuperou a incrível saga esquecida de três expedicionários brasileiros, Leônidas Borges de Oliveira, Francisco Lopes da Cruz e Mario Fava que, em 1928, partiram em dois Ford T do Rio de Janeiro em direção a Nova York com a missão de, no caminho, projetar a Estrada Pan-Americana.

A façanha, que nos EUA já teria rendido filmes, parques temáticos, biografias emocionantes, e a merecida edificação desses três heróis internacionais, aqui ficou esquecida, até questionada pelos próprios familiares desses brasileiros notáveis. A epopeia durou nada menos que dez anos. Por onde passavam, eram recebidos como visitantes ilustres e contavam com apoio para penosamente abrir o caminho na mão, uma estrada até hoje incompleta.

Em Washington DC, já próximos do destino final, foram recebidos por ninguém menos que o então presidente dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt na Casa Branca. De quebra, tiveram um encontro com Henry Ford em Detroit, que lhes propôs a compra dos dois veículos. Os carros fariam parte do museu da empresa, na época a maior companhia de automóveis do mundo. Os nossos heróis recusaram a oferta, uma vez que honradamente deveriam devolver os carros da Expedição Automobilística Brasileira, com os quais desbravaram quase 28 mil quilômetros de 15 países, cruzando matas, rios e toda sorte de dificuldades.

A viagem de volta, feita por navio, durou 10 dias. Desfilaram pelo Rio de Janeiro, onde foram recebidos por Getúlio Vargas. Um dos carros desapareceu e o outro permanece guardado.

Algumas empresas já vêm contando suas histórias por aqui. Mas o que falta mesmo é o Brasil contar as suas. É preciso valorizar as nossas façanhas e sagas históricas. Grandes e pequenas. Histórias grandiosas como essas que relembrei, e casos singelos e inspiradores, como o lindo diário de Helena Morley, escrito no final do século XIX por uma garota de 13 anos de Mariana, Minas Gerais.

As crianças nos ensinam como a imaginação é importante na construção do caráter. As histórias contadas fazem a alma de um povo. Não apenas poucas das nossas empresas, mas o Brasil inteiro precisa contar histórias. E quem deve fazer isso sou eu, você, a sua família, seus vizinhos e amigos. Vamos registrar, criar narrativas emocionantes, contá-las, cultivá-las. Comece hoje.

Cláudio Cardoso é Relações Públicas.

Texto originalmente publicado em seu Linkedin, em 16 de maio de 2017.

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