10 de abril de 2017 às 00:00

Decifrando os dados da Secex

Leandro Barreto
--
Não é necessário ir tão longe no detalhamento dos dados da balança comercial brasileira para entender que os números não são tão catastróficos

Decifrando os dados da Secex

E foi exatamente isso o que fiz na última quinta-feira, baseado nos dados oficiais do Comércio Exterior brasileiro, recém divulgados pela Secex por meio do site Aliceweb, e em parceria com economistas da Parallaxis Economics & Data Science. Se no último artigo de 2016 descrevi o ano que passou como INTENSO, (Leia no Guia), após nos debruçarmos sobre os números percebemos que foi também um ano literalmente IMPREVISÍVEL e basta olhar o gráfico a seguir para rapidamente entender do que estamos falando.

Numa primeira análise, se por um lado boa parte da oscilação percebida nas linhas (contínuas e pontilhadas) do gráfico acima - que representa a evolução do comércio exterior brasileiro em valor, sendo a linha continua em R$ e a linha pontilhada em US$ - estão intimamente ligadas às não menos oscilantes cotações do R$ frente ao US$, por outro lado chama bastante a atenção a aparente primeira inversão desde a crise internacional de 2008/09 na tendência de crescimento dos volumes comercializados com outros países destacados na área em verde do gráfico.

Essa constatação se torna ainda mais frustrante se lembramos que há poucos meses a OMC reportou que, enquanto as exportações mundiais em volume ficaram estagnadas no primeiro semestre de 2016, o Brasil havia sido, entre as grandes economias, o país com maior aumento no volume exportado nesse período. (LeianoGuia)

Mas nem é necessário ir tão longe no detalhamento dos dados da balança comercial brasileira para entender que os números não são tão catastróficos assim:

No que se refere às exportações, percebemos que o grupo de commodities "Grãos e Cereais", que até o Jun/16 crescia impressionantes 31%, acabou fechando o ano com uma queda de 13%. Apenas para se ter uma ideia do impacto da performance dessa commodity, excluindo os "Grãos e Cereais" do cálculo do crescimento das exportações, em volume o crescimento passaria de 1,4% para 3,7%, já que muitos grupos de commodities reportaram crescimento de 2 dígitos em 2016: Açúcar, Celulose, Madeira, Resina etc.

Já pelo lado das importações, apesar de muitos grupos de commodities terem reportado quedas expressivas, conforme demonstrado na tabela acima, o grande responsável pela queda dos volumes foram os "Combustíveis e Lubrificantes". Excluindo esse grupo de commodity, o resultado das importações brasileiras em 2016 passaria de uma queda de 6,6% para um crescimento de 4,1%, sustentado em grande parte pelo crescimento dos volumes de Fertilizantes e Grãos e Cereais.

Segundo o sócio e Diretor de Commodities da Parallaxis, Fábio Ralston, a forte queda na produtividade dos grãos em 2016, resultado do fenômeno climático “El Niño”, impactou negativamente as exportações brasileiras. Dentre os principais grãos, segundo dados da SECEX/MDIC, podemos destacar a forte retração nas vendas externas de milho, -32.3%, resultado de uma redução na produtividade de 31,7% durante a segunda safra, ou “safrinha”, apesar da área plantada ter aumentado em 10,3% (CONAB, 12º levantamento da safra). A baixa produção de milho, levando a uma falta de milho no país, trouxe também um aumento nas nossas importações do cereal, alta de 685%, passando de 369,53 mil toneladas para 2,90 milhões de toneladas. Além do milho também observamos queda nas exportações de soja em grãos (-5,32%), arroz (-27,41%) e trigo (-37,48%). Para 2017, no entanto, avaliamos que com a recuperação na produtividade dos grãos, frente a condições climáticas mais amenas, a produção deverá voltar a crescer, o que deve favorecer nossas exportações em volume. Contudo, a elevada produção nos Estados Unidos e Argentina, poderão trazer uma maior concorrência para os produtos brasileiros, entretanto, a desvalorização do BRL em comparação com o USD poderá vir a garantir uma maior competitividade para os grãos brasileiros em relação aos demais países.

O sócio e economista da Parallaxis, Diego Machado, ressalta que com a definição das eleições americanas, que concenderam a presidência ao candidato Donald Trump (nov/16), a movimentação do dólar apresentou ponto de inflexão, saindo de uma trajetória de declínio que ocorria desde jan/16 para um crescimento nos dois últimos meses de 2016. Esse resultado do câmbio esta em linha com as perspectivas de aumento da taxa de juros em decorrência de dois fatores: aumento da taxa inflacionária e do déficit fiscal nos EUA com base nos programas apresentados por Trump. Se esse fato se consolidar e o câmbio voltar a se desvalorizar frente as outras moedas, podemos ter um agravamento da desaceleração da economia global. Em relação ao cenário apresentado, projetamos para 2017 uma corrente de comércio brasileira de US$ 365,5 bilhões, crescimento de 13% em relação a 2016 (US$ 322,8 bilhões). As importações devem apresentar crescimento acima das exportações em 2017. Projetamos crescimento das importações de 19%, saindo de US$ 137,6 bi (2016) para US$ 164,3 (2017) enquanto as exportações devem crescer 9%, saindo de US$ 185,3 bi (2016) para US$ 201,2 bi (2017).

Em suma, a performance das exportações de 2016 foi fortemente afetada pela quebra da "safrinha", mas para 2017 as perspectivas de crescimento continuam, muito embora precisaremos acompanhar com atenção o "efeito Trump", o câmbio e a cotação do Petróleo.

Leandro Barreto Administrador de empresas, especializado em economia internacional pela Universidade de Grenoble e em Inteligência Competitiva pela FEA/USP

Texto originalmente publicado em Guia Marítimo, em 23 de janeiro de 2017.

A opinião expressa em artigos é de responsabilidade dos signatários e não é necessariamente a opinião da Usuport