20 de fevereiro de 2017 às 00:00

Os sete pilares claudicantes da ponte Salvador-Itaparica

Paulo Ormindo de Azevedo
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Qual o custo-beneficio, prioridade e riscos deste projeto, num estado que tem 25% de analfabetos, a maior taxa de desemprego do país e é o mais rural, além de concentrar 50% da renda na RMS?

Os sete pilares claudicantes da ponte Salvador-Itaparica

Com duas matérias de página inteira deste jornal (A Tarde), dos dias 10 /01 e 7/02, o governo do estado anunciou a licitação da ponte de Itaparica, que não foi prevista no PDDU de Salvador, nem no termo de referência do plano metropolitano. Os sete pilares da ponte seriam:


1º – O Sistema Viário do Oeste vai trazer a produção de grãos e minérios do Oeste para o porto de Salvador. Acontece que o porto de Salvador não opera com graneis e o frete rodoviário é muito mais caro que o ferroviário da Fiol. O porto de Aratu, por outro lado, está saturado.


2º – A ponte vai levar o desenvolvimento para o Oeste da BTS e Baixo Sul. Ou será o contrário? A atratividade de Salvador e do Litoral Norte para o sertanejo é bem maior que a de S. Antônio de Jesus para os soteropolitanos. Essa cidade e Feira de Santana vão ceder para Salvador grande parte de seu comercio. Para ir a Itacaré ou Barra Grande não é mais fácil o turista usar o novo aeroporto de Ilhéus e o Porto Sul?


3º – A ponte vai desenvolver a região metropolitana de Salvador. Como, se ela dá um salto sobre a baia? Um cinturão rodo-ferroviário em volta à baia, poderia integrar quatro portos: Salvador, Aratu e Temadre e São Roque, e quatro centros industriais – CIA, RLAM, estação de regazeificação e estaleiros, além de 20 poços reativados de petróleo. Com essa via se ganharia um polo turístico, histórico e náutico, no Recôncavo. Com a ponte, nada.


4º – Itaparica irá expandir Salvador. Sim, a ilha será um dormitório da Capital, como São Gonçalo no Rio e deposito de contêineres de seu porto. Salvador terá sua área metropolitana duplicada e o ônus de reproduzir mão de obra para gerar riqueza em outros munícipios


5º – O centro histórico de Salvador vai ser revitalizado com a ponte. Sem um rodoanel, Salvador e seu C,H. vão ser cruzados por 140 mil veículos/dia, que se destinam ao Litoral Norte, aeroporto, COPEC, Ford e cidades do Nordeste. Haja engarrafamentos!


6º – Não haverá mais fila para ir a Itaparica. Não foi o que aconteceu no Rio. As filas para as barcas de Niterói continuam enormes. Não faz sentido pagar pedágio, enfrentar congestionamento e não ter onde estacionar no destino final.


7º – A ponte vai criar empregos e injetar sete bilhões de reais em Salvador. Ledo engano. Os chineses trazem tudo, mão de obra e equipamentos. Neste momento de crise, subscrever 25% deste empreendimento e pagar 480 milhões anuais pelo seu uso é um risco muito alto. O estado já tomou um calote da Asia/Kia e, há três anos, enterrou um carro Jac, chinês, em Camaçari.


Qual o custo-beneficio, prioridade e riscos deste projeto, num estado que tem 25% de analfabetos, a maior taxa de desemprego do país e é o mais rural, além de concentrar 50% da renda na RMS?

Paulo Ormindo de Azevedo é professor titular de Arquitetura e Urbanismo na  UFBA.

Artigo publicado originalmente no jornal “A Tarde” e na página do facebook do autor.

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